Há três meses acordava todos os dias pela manhã e me sentava na frente do computador por oito horas, com pequenos intervalos para o banheiro e alguma comida. A rotina era sempre a mesma: e-mail, facebook, linkedin, e-mail, facebook, vagas.com. Preferia mandar e-mails, mas as vezes me deparava com formulários longuíssimos, testes de lógicas, cartas de apresentação. Para as perguntas de sempre já tinha respostas salvas em um arquivo, só mudava o nome da empresa. As vezes recebia uma ligação “você se candidatou pra tal vaga em tal empresa” e eu “sim, claro, me lembro, quero muito” mas não lembrava e nem sabia do que se tratava.
Ninguém tinha me contado que procurar emprego era um trabalho de tempo integral, além de não remunerado. E ainda por cima sem fins de semana ou noites tranquilas. Passava meu tempo livre tentando não me preocupar, estava fazendo minha parte, uma hora ia dar certo. Mas me preocupava, e sofria porque sabia que quando começasse a trabalhar, aí sim não restaria tempo livre, o paradoxo do desemprego. Como já dizia The Smiths, sabe, naquela música assim: “I was looking for a job, now I found a job and God know I’m miserable now”.
Dia ou outro tinha uma entrevista. Já dava até pra deixar a psicanálise porque era cada pergunta que tinha que responder. Numa delas saí chorando. O que me pegava era o tal do “onde você se vê em cinco anos” e a resposta honesta era “não tenho a mais puta idéia, só quero um emprego pra me assegurar que daqui a 5 SEMANAS não estarei na rua”. Os recrutadores são tão pretenciosos, realmente se acham grandes entendedores da natureza humana.
Mas essa que saí chorando foi interessante. Dois moleques me entrevistaram, e acabei ficando mais à vontade por isso. Também contava o fato de já estar experiente em discorrer sobre mim. Falei como viajei sozinha desde muito nova, e como sou independente e falo línguas, em como gostava de estudar e dos prêmios que ganhei, falei do livro que estava lendo e dos temas que me interessavam. Em como o yôga era uma parte importante da minha formação, e como cresci no interior com a natureza e a política de cidade pequena, e os turistas estrangeiros, e a educação. Ele me sacou na hora, me perguntou o que eu estava fazendo ali se o que eu queria era viajar o mundo. Não sabia.
A vaga era de atendimento, fui contratada.