Silêncio

Mariana abriu os olhos sozinha naquela manhã. Desde que seu filho nascera não tivera uma manhã tranquila, em que não fosse arrancada da cama contra sua vontade pelos berros da criança ou pelo chamado estridente do alarme. Sorriu com toda a alma como só um corpo descansado que escolhe sua hora de levantar pode sorrir. Fechou os olhos por mais um instante buscando o canto dos pássaros, seus colegas de profissão favoritos, mas encontrou apenas silêncio. Deliciou-se então no silêncio, misterioso desconhecido, enquanto levantava-se devagar e se preparava para o dia.

Primeiro cuidar do Joãozinho, depois preparar a comida. Em seguida estudar as músicas que cantaria à tarde em sua estréia no show de verão do jardim municipal. Faria seus aquecimentos vocais antes do almoço e em seguida partiria para o jardim pronta para a passagem de som com a banda. Esse era o dia pelo qual havia esperado desde que recebera o convite, cantar no festival de verão era seu sonho de menina e o dia finalmente chegara.

Olhou no relógio e soltou um grito de susto. Ou pelo menos pensou que soltou. Eram 10 horas da manhã. Correu pro quarto do filho e o encontrou em pé no berço com a cara vermelha e contorcida de choro, mas não emitia nenhum pio. Pegou o menino e sentiu suas entrenhas contorcendo-se. No caminho para a cozinha sentiu uma vibração e sem aviso prévio a porta de entrada escancarou-se, arrombada por dois policiais e sua vizinha de porta. Paralisada pelo susto que tomou em silêncio, Mariana observou um dos policiais fingir que falava algo e sua vizinha que chorando quieta correu pra abraçá-la.

Após algus segundos de estupor, o filho ainda contorcido nos braços, a vizinha olhando em seus olhos, perguntou furiosa o que estava acontecendo ali:

-O que está acontecendo aqui?

-O que está acontecendo aqui?

-hamham, o que está acontecendo aqui?

Mariana sentia o som sair de sua garganta, sentia suas cordas vocais trabalhando roucas após uma noite de sono, mas o som não saía. Percebendo sua agitação a vizinha tomou o menino de seu colo e levou-o para a cozinha enquanto os policiais pareciam querer explicar-lhe algo, porém as palavras tampouco saíam de suas bocas. Sua confusão era tal que ela teve certeza de que estava sonhando. Primeiro porque jamais acordara tão tarde, e segundo porque todo esse silêncio era aterrorizante demais pra ser realidade. Os policiais, por sua vez, não sabiam se a mulher era louca ou estúpida e resolveram levá-la pra delegacia para descobrir.

O fato que escapava à Mariana é que seu filho chorava à plenos pulmões há 4 horas e a vizinha, convencida de que ela morrera, chamou a polícia. Desde seu vazio, no entanto, Mariana viu-se arrastada sem justificativa, de pijama, no dia mais importante de sua carreira.

-Pra onde vocês estão me levando?

-Pra delegacia, senhora, apenas para esclarecermos algumas dúvidas.

-Pra onde vocês estão me levando??

E:

-Senhora Mariana, você está sob o uso de alguma substância?

-O que foi que eu fiz? O QUE FOI QUE EU FIZ? O QUE FOI QUE EU FIZ?

E:

-Eu preciso retornar imediatamente para minha casa.

-Senhora prec..

-Eu preciso retornar imediatamente para minha casa.

E:

-A senhora poderia confirmar seu nome completo, por favor?

-O que vocês querem comigo?

-Seu nome senhora.

-O que vocês querem comigo?

Após dezenas de tentativas frustradas de ambas as partes em estabelecer uma comunicação efetiva os policiais desistiram e colocaram-na em uma cela. Mariana, preocupada com o horário do show decidiu que faria ali mesmo seus exercícios de aquecimento.

-trrrrrrrr, trrrrrrr, trrraaa, TRRREEEE, TRIIII, TRROOO, TRRUUU, TTTRRRIIMMM, TTTRRRRRRRRIMMMMMM – mas nenhum som chegava aos seus ouvidos. Já com lágrimas nos olhos Mariana tentou mais uma vez:

-ZZZZZMMMMMM, MMMMMMMMMM, MMMMMAAAAAA, MMMMMMMEEEEEE – e nada.

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