Conheci Marcelo no último suspiro de uma sexta a noite. Um cavalheiro, olhe só! Abriu a porta do carro e me deixou em casa com um “até amanhã” após algumas horas de papo, daqueles que fluem sem esforço. Passei dias sorrindo à toa. Mas nada do “até amanhã”. Até que o conheci novamente, duas semanas mais tarde, ao esbarrar com ele no supermercado, filho no braço, mulher ao lado. Sem papo, sem sorrisos bobos.
Acontece que Deus fez uma sacanagem comigo: embalou-o em traços perfeitos de homem conquistador, com seu cabelo castanho e bagunçado, nariz pequeno – bem desenhado, lábios grossos, envoltos por uma barba mal feita. Isso num corpo de porte grande, alto, forte. Mas a maior sacanagem eram seus olhos: inocentes. E então o conheci de novo, assim por acaso, no bar da esquina. Me explicou que o filho era dele, mas já não estava com a mãe. Me chamou para dançar e a dança acabou na cama. E de novo, fui. E de novo, e de novo.
Mas ele não valia nada, disso eu sabia. Desses artistas que insistem em se vangloriar por cultivar uma áurea de bêbado e deprimido, dependente do fim do copo de whisky para tirar de dentro qualquer sentimento digno de atenção. Intelectual, pessimista, “sou assim, essa é minha forma torta de amar”. É muito fácil se esconder por trás do pessimismo. É cômodo acreditar que não há solução.
Às nove da noite de uma quarta-feira recebi uma mensagem sua. Já não o via há dias, talvez semanas. Ele dizia “desculpe-me o sumiço, ando ocupado…”. As nove e quinze saí de casa, e lá estava ele, naquele mesmo bar, tratando de se camuflar entre as pessoas pra não ser visto. Eu dei risada. Fingi que não vi. A recaída foi culpa minha, mas ele sentia saudades, me disse. “Jantar?” irrecusável. “Você me seduz, me fascina, não resisto” e eu querendo acreditar. Aquela vontade de olhar ele dormindo tão bonito ao meu lado. Mas ele resistiu as duas semanas seguintes, até que se sentiu sozinho, e eu caí novamente.
A verdade é que já era a terceira vez naquela semana que ele se sentia sozinho às 2 da manhã. O rosto bonito se perdia no cheiro acre de álcool que exalava como perfume. Seu sono pesado fazia minha insônia parecer ridícula. Eu quis tanto tê-lo em minha cama, para nada. E depois apareceu outra (mas ele ainda me amava).
“Vai dar tudo certo” foram as palavras que escutei dentro de um abraço na noite em que senti saudades. “Não me deixa”, ele disse, nunca me olhando nos olhos. Seus cílios negros e longos encobrindo sua babaquice.
Acho que nunca vou conhecer Marcelo. Ou talvez já o conheça muito bem.