Dia nublado

Desci do avião para uma manhã nublada. Tentei me lembrar da última vez que estive no Rio, do sol escaldante, mas fazia tantos anos. Os dias ensolarados não eram mais que uma história que me contaram.

Quando fui para Barcelona nem passava pela minha cabeça que não voltaria mais para o lugar que deixei. Nunca levei a sério a possibilidade do tempo e a distância destruírem meus pilares, os que achava que estariam sempre lá: meu lar, ainda que não o fosse mais, minha mãe, que já não estava.

A casa da minha infância ainda tinha o mesmo cheiro. A bagunça característica de mamãe, livros pelo chão, uma taça de vinho pela metade e o cinzeiro ao lado do sofá, uma manta, o disco do Paco de Lucía na vitrola. Talvez ela também sentisse minha falta.

Um a um os livros foram para a caixa de doação. Datados e assinados, alguns com dedicatórias. Aquela biblioteca guardava boa parte dos contos que já povoaram minha imaginação. Papéis e mais papéis para a reciclagem. Todos os acúmulos de uma vida. Passei ao guarda-roupa. Bom gosto tinha ela, e vestíamos o mesmo tamanho, mas preferi nem olhar. Separei um casaco de pele e as jóias para vender, o restante levei para a paróquia vizinha. Os móveis e utensílios ficaram. Fotografei toda a casa despida de alma e coloquei as fotos na internet em um site de aluguel de temporada.

Uma tarde, foi o tempo que precisei para limpar os vestígios de uma vida.

Voltei ao aeroporto na manhã seguinte.

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