Ele foi embora. Me contou ontem que conheceu outra mulher. Eu não quis saber dos detalhes. Fui ao bar com a cabeça e o corpo vazios e pedi uma taça de vinho tinto.
Pra ser sincera, não me espantei. Eu já sabia. Mas depois de acostumar-se com um corpo quente do lado direito da cama, despertar com o barulho do chuveiro e o cheiro de café fresquinho perfumando a casa, não posso dizer que era o que desejava. Paixão já não havia, mas uma presença calma e constante, um porto seguro entre meus sentimentos tão turbulentos.
Pedi outra taça de vinho e esperei até que a notícia percorresse o caminho dos meus sentidos. Soube que ela finalizou seu trajeto quando senti duas lágrimas escorrerem até o canto da minha boca. Paguei a conta e voltei pra casa. Ele levou tudo: roupas, discos, até o quadro do gato sobre a cadeira. Era dele sim, mas era meu quadro preferido. Espalhei o que ficou pra trás, ocupando os espaços vazios e adormeci no sofá.
Acordei sem paciência para o jornal, fui direto ao horóscopo. Pedro considerava isso uma falha em minha inteligência e eu sempre tratava de disfarçar. Não esperava outra coisa de um touro com ascendente em capricórnio. Será que nunca mais o veria? “Momento de rupturas. Aproveite para livrar-se de tudo o que não te pertence e cuidar de si”.
Chorei de novo, só mais uma vez. Levantei e pendurei o quadro das cartas de tarô que estava guardado no fundo do armário. Parece que vou melhorar sem ele.