Fazia 35o em Boa Vista e Madalena estava pronta pra tirar toda a roupa e terminar a faxina, nua, com um banho de mangueira no jardim. Aí lembrou do vizinho: ontem estava sem camisa consertando o carro na rua. Ele era uma delicinha. Ela não podia começar a pensar nisso, Rogério já estava em São Paulo há mais de quatro meses e uma mulher também tem lá os seus desejos. Ainda mais nesse calor… Ela jurava que o vizinho vinha sorrindo pra ela. E não era aquele sorriso de cumprimentar vizinha, não.
Rogério nunca tinha sentido tanto frio: 14o em São Paulo. Suas bolas estavam pequenininhas, ele não acreditava que isso era possível. Só conseguia pensar no calor de Roraima e de como o sol era bom, penetrando a pele. A pele. A pele da Madalena, toda morena, suada de amor. Não estava agüentando mais a distância. Quase não conseguiu tirar a roupa de tanto frio quando entrou no quarto de Carla.
Carla era Solange, que vinha de Natal. A vida de puta em São Paulo não era fácil. Os clientes eram uns trogloditas e destruíam o que ainda sobrava da sua vontade de viver. Viu no noticiário que fazia 30o em Natal. Sentia muitas saudades das dunas e do mar. E também do Raffaello, que era um italiano filho da puta. Mas ele tratava ela tão bem: prometeu que a levaria pra Europa.
Raffaello mal podia esperar pelo fim desse inverno: que má idéia voltar pra Roma bem em janeiro, deveria ter ficado no Brasil. Mas ok, os 16o eram suportáveis. Sua mulher encheu o saco pra ir visitar os parentes em Jerusalém. O que deu nele pra casar com uma judia na Itália? Queria tanto sua mãe agora, não devia tê-la desafiado. Uma família católica, tradicional: era disso que precisava. De que adiantou todo aquele amor se Adélia nem de sexo gostava mais? Daqui a pouco ia inventar de raspar o cabelo. Ainda bem que ele tinha o Brasil e seus encantos.
Adélia estava em êxtase com os 27o de Jerusalém. Israel era sua casa. Precisava tanto da sua família, de sua mãe.. E de distância daquela louca da sogra que só aparecia pra infernizá-la quando o filho não estava. Quem a Martina achava que era pra decidir como ela educaria seus filhos? E Raffaello, nunca se posicionando para defendê-la, parecia um estranho em casa. Se sentia tão só naquele país de Jesus.
Martina sentia um prazer imenso em complicar a vida do filho por casar-se com Adélia. Onde já se viu um homem nascido em uma família tradicional cometer esse desaforo? Ele pagaria por isso, mesmo que isso lhe custasse sentir muita falta de seu piccolo favorito. Agora estava de férias dos netos e da nora. Relaxava e curtia a chuva fina que batia na janela do arranha céu. Os termômetros marcavam 8o em Nova York, mas dentro do bar o garçom fazia a temperatura subir uns 30o, principalmente com aquele sotaque.
Alexandre trabalhava o terceiro turno daquele dia. Uma italiana boazuda pedia um Martini após o outro. Dizia que o drink rimava com o nome dela: Martina. A cada Martini, Martina lhe dava um tapinha: Loba. Talvez descolasse uns trocados da velha. Esse inverno estava castigando e ele precisava de um casaco novo, se aproximava uma nevasca das bravas, 0o com sensação de -10o. Era quase o fim do turno, ele ligaria pro primo no Brasil. Já era hora daquele safado vir pra América.
Eduardo desligou o telefone. O ar estava mais fresco após o cair da noite em Boa Vista: 28o. Pensou no que Alexandre disse. Tinha medo da neve, mas lá ele teria muito mais oportunidades. Decidiu, iria para os Estados Unidos. Mas antes, ia comer a gostosa da vizinha.