Achei uma última seda e enrolei um cigarro.
Com 3 anos você me prometeu parar de fumar se eu largasse a mamadeira. Eu cumpri minha promessa, sempre odiei cigarros.
Você sentada na varanda, tinha seu momento. Não sei o que se passava em sua cabeça, era criança. Hoje sei o que se passa na minha.
Não tenho varanda, sento-me na janela.
Penso a vida. Todas as possibilidades que existem. Eu aqui, sentada na janela, sem saber como abraçá-las. Você lá, sentada na varanda daquele planalto sem fim.
Tenho fome de vida. Mas como com frugalidade. Você tinha fome de vida. Uma lista das coisas que faríamos quando as circunstâncias melhorassem. Fazer uma trilha pra subir o morro do peão (era esse mesmo o nome? – preferia o nome que nas dávamos a ele: bico do peito).
Não é o Everest, talvez ainda o conquiste.
Asa Delta, era um sonho né? Pulei de pára-quedas.
Viajei a Europa lembrando seus relatos. Atenção às malas na estação em Amsterdam. Talvez dê sorte em um caça-níquel. Se cair no rio, salve a máquina fotográfica.
Não consegui salvar as fotos. A mim também roubaram.
Ontem encontrei suas amigas e pensava como seria você ali, dançando com elas. Eu amo dançar. Você dançava sapateado. Eu colocava aquele sapatinho e ficava fazendo barulho.
Você tinha espírito de artista. Eu escrevo um pouco. Um pouco mais, de repente.
Quando lhe enxerga em mim, meu pai se assusta. Eu sei. É que temos essa loucura. Não a troco por nenhuma vida menos existencialista.
Que conselhos você me daria agora?
Você foi amada por todos. Ainda o é. Como era bondoso seu coração. Infinita sua generosidade. Como você se entregou em suas relações. Em seus afetos. Que grandes amizades você cultivou. Será que serei amada assim? Será que saberei amar assim?
Sinto seu sangue em mim. Todos os dias. A cada decisão. Escolho não abrir mão da paixão. A vida é mais interessante assim. Ainda que doa.
Espero que nossos pecados sejam perdoados. Espero que quando lhe encontre perdoe minha dor.
Espero que de tudo isso, receba apenas meu amor.